Mostrando postagens com marcador trapaça. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador trapaça. Mostrar todas as postagens

06 março, 2014

Trapaça (American Hustle, EUA, 2013).

"Todo mundo vai ao limite para sobreviver" (Livre tradução da frase disposta no poster promocional do filme).
Uma coisa é certa, Trapaça é um filme muito divertido. Novo trabalho do queridinho David O. Russell (O Lado Bom da Vida), o longa é levemente inspirado em fatos reais, mas ganha força pelos caminhos inusitados dispostos à trama pelo diretor e roteirista, como também pelo elenco, que teve bastante liberdade para improvisar diálogos e ajudar O. Russell a reconstruir o conceito original que abordaria uma dupla de trapaceiros (vividos por Christian Bale e Amy Adams) cuja missão seria prestar consultoria a um agente da CIA (personagem de Bradley Cooper) a pegar gente graúda da política norte-americana com a boca na botija. Ambientada nos anos 1970, a trama tem tudo para pegar o espectador de imediato, seja pela série de eventos rocambolescos que surgem a rodo, seja pelo leque de personagens esquisitos, mas carismáticos, que desfilam pelo filme. Entretenimento de qualidade realizado com precisão, Trapaça é um filme redondo e bem feitinho, mas não o bastante para justificar toda a comoção pública (está longe de ser uma obra-prima), muito menos as trocentas indicações ao último Oscar.

Uma série de fatores fazem de Trapaça um filme interessante, tanto esteticamente quanto narrativamente. As equipes de maquiagem e figurino (liderada por Michael Wilkinson, de O Homem de Aço) realizam um grande trabalho ao lado da designer de produção Judy Becker (Hitchcock), conferindo um visual chamativo mas reverente à década de 1970, enquanto o fotógrafo Linus Sandgren (Terra Prometida), apesar de não brilhar, ajuda O. Russell a captar as imagens mais adequadas as pretensões da história, enquanto este último orquestra com competência o visual carregado, além das falas e das performances do elenco, de longe o maior destaque da fita.

O que dizer a respeito de um filme encabeçado por um elenco de primeira qualidade que está se divertindo a beça? Apesar de nem todos terem sido lembrados pelos festivais e premiações afora, o quinteto principal entrega performances bem niveladas, sendo necessário destacar não apenas as composições indicadas ao Oscar de Bale, Adams, Cooper e Jennifer Lawrence (Jogos Vorazes, Jogos Vorazes: Em Chamas), mas também a de Jeremy Renner (João e Maria: Caçadores de Bruxas), cuja participação é tão ou mais impactante que a de Lawrence, por exemplo. Como tudo relacionado ao filme, as interpretações brincam bastante com a questão do real e do falso, seguindo a onda da carga de absurdo pedida pelo roteiro de O. Russell e Eric Warren Singer (Trama Internacional), mas assim como todo o pacote estas não mostram nada de excepcional, que ultrapasse o limite da pura diversão. Há outras camadas de discussão no filme? Há sim, mas estas são tão diluídas e pouco exploradas que o senso de diversão acaba por engolir tudo mais.

Gosto do trabalho desenvolvido por David O. Russell e o considero um cineasta interessante, além de bastante esforçado. Todavia, não acho que seus trabalhos sejam assim tão excepcionais a ponto de conquistarem tanta comoção, especialmente da crítica. Seus últimos dois trabalhos, O Vencedor e O Lado Bom da Vida, foram indicados a vários prêmios Oscar e Globo de Ouro, por exemplo, mas, apesar destes serem filmes muito bons, não acredito que sejam tão bons assim. É certo que neles e em Trapaça o diretor consegue extrair desempenhos marcantes de seu elenco, mas o roteiro destes filmes são um tanto quanto quadradinhos demais, seguindo uma pseudo-fórmula para agradar tanto os críticos de plantão quanto o grande público, tornando suas obras pouco corajosas e até mesmo engessadas. No caso de Trapaça o problema maior reside no alargamento exacerbado da trama - são mais de duas horas de projeção para pouco assunto -, que só consegue manter-se interessante pelo bom desempenho dos atores e pela cosmética do filme em si. Muitos descreveram o filme de O. Russell como um genérico de Martin Scorsese e tal pensamento não está muito longe da verdade. Bacana que temos aqui um baita cineasta como referência, não?

Indicado a dez prêmios Oscar, Trapaça acabou não levando nenhuma das estatuetas para casa. Isto não faz dele um mau filme, muito pelo contrário, mas de certa forma confirma a impressão que tive após vê-lo pela primeira vez: taí um filme bacana e redondinho, mas que não tem cara (nem merece) prêmio algum. Indo na escola de títulos como Prenda-me Se For Capaz, de Steven Spielberg e da franquia iniciada por Onze Homens e um Segredo, conduzida por Steven Soderbergh, Trapaça é uma peça de entretenimento vistosa, bem feita e muito divertida, mas não muito além disso. Certamente será muito bem aceita no mercado de home-vídeo, mas não duvido que torne-se esquecida com o passar dos anos.

Quer saber quantas estrelas dei para o filme? Acesse minha conta no Filmow.

TRAILER

Mais Informações: