08 fevereiro, 2013

Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, ING/EUA, 2011).

"O filme me surpreendeu. Uma performance impecável de Tilda Swinton" (Indiewire).
Os primeiros dez minutos de projeção de Precisamos Falar Sobre o Kevin podem gerar certa confusão e dificuldade de entendimento sobre o que se passa no espectador, muito pela rápida alternação de linhas narrativas de tempos distintos e pelo pouco espaço (até então) dedicado a apresentação da personagem principal, Eva, por sinal interpretada com  propriedade e incrível poder de imersão por Tilda Swinton (vencedora pelo Oscar de melhor atriz coadjuvante por Conduta de Risco). Contudo, logo essa primeira impressão de "bagunça" é assimilada com mais facilidade e a compreensão acerca do que se passa é sentida, num misto de choque e curiosidade, características que permanecem durante toda a projeção do filme, aliadas a um clima oscilante (no bom sentido) de tensão.

Adaptação direta homônimo de Lionel Shriver, o filme transporta para o mundo da ficção um evento que infelizmente hoje parece bastante "comum", especialmente na nação dos "loucos", os Estados Unidos da América, que é a deturpação juvenil arraigada a problemas familiares de cunho psicológico e a expressão de morte nos corredores da escola (aspecto já retratado anteriormente no filme Elefante, do cineasta Gus Van Sant). Tendo como fio condutor os personagens Eva e Kevin (interpretado pelo ótimo Ezra Miller, na fase adolescente da personagem) - mãe e filho - e seu relacionamento complexo, incômodo e muitas vezes repulsivo, o longa explora uma temática bastante difundida pela mídia nos últimos dez ou vinte anos, mas pouco compreendida pela sociedade, especialmente pelo seio familiar, que não se vê como ao mesmo tempo cúmplice e refém de acontecimentos como os apresentados em Precisamos Falar Sobre o Kevin, especialmente o seu desfecho mais do que trágico, altamente desestabilizador. Certamente a diretora Lynne Ramsay (ao lado do co-roteirista Rory Stweart Kinnear) optaram por dar um grande destaque em uma espécie de "demonização" das personagens Eva e Kevin e na concepção dos mesmos como antagonistas entre si e ao mesmo simulacros um do outro (as rimas visuais, como aquela em que ambos aparecem mergulhando o rosto na água são mais do que claros), que resulta bem a proposta do filme, todavia senti falta de uma objetividade maior na apresentação do histórico "largado" da personagem de Tilda Swinton, informações estas que certamente confeririam ainda mais propriedade a sua relação com o personagem de Miller.

Apesar de não ser exatamente dinâmico, Precisamos Falar Sobre o Kevin possui uma narrativa tão fluída que acaba despertando interesse quase que de imediato, além de imprimir um ritmo crescente de tensão, especialmente quando as variações de tempo começam a diminuir de intensidade, o que acaba por provocar um misto de angústia e aflição no espectador, que certamente prevê - como algumas cenas anteriormente já haviam adiantado - que nada de bom virá conforme o filme vai passando. Certamente Lynne Ramsay mostra-se como uma boa cineasta, compondo planos interessantes - alguns belíssimas e altamente metafóricos, como aquele que apresenta o pequeno Kevin sentado de costas a sua mãe, numa imagem que resume por completo o vácuo que existe entre ambos - e sendo direta quando necessário. No entanto, talvez sua maior contribuição ao filme tenha sido no quesito direção de atores, pois os mesmos são inequivocamente os grandes destaques da película. Mesmo que o excepcional trabalho de composição de Tilda Swinton a alce como o maior dentre estes destaques, o restante do elenco principal mostra-se bastante nivelado, especialmente John C. Reilly (Deus da Carnificina) - contido, mas não menos competente - e o até então desconhecido Ezra Miller, que sai muito bem sucedido na missão de não transformar seu personagem numa caricatura.

É certo que o filme não tem grandes artifícios no âmbito de composição técnica, já que certamente sua fotografia ou trilha sonora, por exemplo, não se sobressaem narrativamente - a bem verdade o que está sempre acima dos outros é o elenco, sem sombra de dúvida - mas não deixa a desejar em nenhum sentido, pois serve bem ao filme no âmbito geral. No entanto, apesar deste equilíbrio é válido destacar a recorrente inclusão da cor vermelha como elemento de ligação entre as ações futuras do filme, que culminam na tragédia envolvendo o jovem Kevin e sua escola. Da tinta anarquicamente posta na casa de Eva a geleia posta na torrada por Kevin, passando obviamente pelo sangue do massacre promovido pelo mesmo,  o vermelho é um elemento importantíssimo à narrativa do filme, especialmente como sinalizador do perigo inevitável (pelo menos para o filme). Além disso destacaria também a opção narrativa de Ramsay em apresentar o filme como objeto das reminiscências de Eva, o que por sinal justifica a confusão de imagens entre antes e depois bastante utilizada no filme.

Um filme dotado de opiniões fortes, com personagens tridimensionais e interessantes - mesmo que em momento algum os conheçamos a fundo -, possuidor de uma mensagem rica e de importância ímpar ao debate e a discussão, a bem verdade Precisamos Falar Sobre o Kevin não expressa nada de novo acerca das vicissitudes do mal  presente nos recônditos da natureza humana, mas o sintetiza de maneira tão profunda, urgente e, por que não, poética, que acaba sagrando-se único e, mais, importante. Certamente este não será o filme definitivo a abraçar tal temática, contudo apresenta-se como um dos mais sinceros e eficientes já feitos. Precisamos Falar Sobre o Kevin não está preocupado em passar a mão na cabeça de ninguém, muito menos em justificar ações, simplesmente registra um fato possível e nos faz sangrar junto as vítimas (mortas ou não), pois querendo ou não, todos estamos no mesmo barco quanto a imprevisibilidade  e a pequenez da existência, afinal de contas somos apenas humanos. Como provocou Nietzsche "demasiadamente humanos".

AVALIAÇÃO
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